Como um show do Paul McCartney pode inspirar sua carreira?

O que faz alguém com 72 anos de idade, que já atingiu o auge da fama e das conquistas continuar fazendo turnês mundiais com shows de 3 horas de duração?

Era uma noite chuvosa como há muito tempo eu não via em S.Paulo, parecia que todas as preces para que chovesse na cidade haviam sido atendidas de uma só vez e, apesar da chuva, o estádio estava lotado com cerca de 45.000 pessoas se acotovelando, olhando para o palco escuro e vazio, aguardando ansiosamente a entrada dos músicos.

Esta seria a terceira vez que eu assistiria a um show do Paul McCartney ao vivo, portanto, já não havia toda aquela ansiedade que antecede algo inusitado porém, enquanto aguardava a abertura do show, eu me sentia diferente, lembrando a emoção que havia sentido no primeiro show que assistira nos EUA.

Para mim, McCartney e a banda na qual tocava, The Beatles, através de sua música, estiveram sempre presentes nas diversas fases da minha vida; infância, juventude, fase adulta e continuam até os dias de hoje com a velhice chegando apressada, sem pedir licença. Eu arrisco até dizer que estas músicas, de certa forma, compuseram a trilha sonora da minha vida, presentes em momentos de alegria e tristeza.

Um dos sonhos que eu cultivava, desde a adolescência, era assistir ao vivo um show dos Beatles e, com o passar do tempo, após a dissolução do conjunto e a morte de dois ex-integrantes da banda, a meta passou a ser assistir um show do Paul McCartney ao vivo.

Quando mudei para os EUA em 2007, pensei que iria concretizar este sonho pois, artistas deste porte costumavam incluir aquele país em suas excursões mundiais, diferentemente do que acontecia com o Brasil, onde ele havia se apresentado duas vezes, sendo a última vez em 1993.

Durante os pouco mais de dois anos que morei lá, o Paul não saiu em excursão e bastou eu voltar para o Brasil, no final de 2009, para que nova excursão mundial do Paul fosse anunciada com os EUA fazendo parte do roteiro porém, uma vez mais, o Brasil, em princípio, continuava de fora.

Os boatos que circulavam entre os admiradores do músico davam conta que aquela seria a última excursão mundial pois alegavam que a idade avançada do mesmo havia se tornado um obstáculo para este tipo de evento, que incluía longas viagens, e toda a agitação que envolve um concerto de Rock & Roll.

Quando eu soube desta “notícia”, fiquei frustrado pois o sonho deveria ser abandonado a menos que eu fosse para os EUA assistir ao show lá.

Uma data e local do show eram particularmente favoráveis para mim; sábado de Aleluia, Sun Life Stadium, nos arredores de Miami.

Confirmei que ainda possuia algumas milhas em programas de fidelidade de companhia aerea que me possibilitariam reduzir o preço das passagens aereas.

Convidei minha esposa e fiel companheira de aventuras que aceitou prontamente a embarcar numa das que seria, talvez, a maior “extravagância” da minha vida; viajar de Belo Horizonte a Miami, apenas para assistir a um show de Rock & Roll.

Pronto! A frustação havia se transformado em excitação!

Ironicamente, depois disto, ele, contrariando os boatos, veio outras cinco vezes para o Brasil, incluindo esta turnê que estava se encerrando agora em S.Paulo.

Meus devaneios foram interrompidos pelos gritos da platéia motivados pela iluminação azul do palco e a entrada apressada do cantor e sua banda assumindo seus postos para iniciar o show.

Foram quase três horas de show onde o músico, apesar de sua voz, obviamente, não ser a mesma de outros tempos, mesclou sucessos do início da década de 60 com lançamentos recentes, tocou diversos tipos de instrumentos, tentou se comunicar em português e, principalmente, encantou a platéia que cantou, dançou, sorriu e até chorou de emoção, debaixo da chuva que não parava de cair.

Diante de nós estava Sir James Paul McCartney, 72 anos, milionário, agraciado com os títulos de Membro do Império Britânico (MBE) e Sir pela Rainha da Inglaterra, teve 29 composições de sua autoria no primeiro lugar das paradas de sucesso dos EUA, foi declarado em 1979, pelo Livro Guinness dos Recordes como o compositor musical de maior sucesso da história da música pop mundial de todos os tempos.

Quando Paul encerrou o show e se despediu da platéia dizendo “Até a próxima”, caprichando no português, uma pergunta veio à minha mente: qual é a motivação para que ele ainda faça shows com três horas de duração, com toda esta magia e energia, como se fosse um jovem em início de carreira, tentando obter um contrato de gravação ou conseguir mais fãs?

A primeira resposta que encontrei, por mais simplista que possa parecer, foi que ele gosta do que faz e sente prazer em sempre fazer da melhor maneira possível, obtendo o pleno reconhecimento do público, em qualquer canto do planeta.

Qualquer profissional, que gosta do que faz e se dedica, com determinação, para continuamente se aprimorar e fazer cada vez melhor, terá grande chance de ser bem sucedido e a recompensa virá na direta proporção dos resultados alcançados por seu esforço; não tem segredo!

Invariavelmente, existirão muitos percalços e tropeços antes do sucesso e, principalmente do reconhecimento, afinal, como confirma o ditado: “o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário”. Para quem não sabe, os Beatles, e por consequência, Paul McCartney, no início de carreira, tocaram (e muito) em clubes de reputação duvidosa em Hamburgo na Alemanha e tiveram seus trabalhos recusados por várias gravadoras antes que, finalmente, pela persistência e determinação de seu empresário na época, alguem decidisse por gravar o que seria considerado o maior fenomeno musical de todos os tempos.

E, para reflexão, o resumo fica na última frase da música que encerra* o último disco gravado dos Beatles e que também encerrou o show do Paul: “and in the end, the love you take is equal to the love you make”…

* O disco “Abbey Road” foi o último disco gravado pelos Beatles e a última música do lado B deveria ser “The End” porém, a música “Her Majesty”, que havia sido descartada anteriormente, foi adicionada, por acidente, pelo engenheiro de som depois desta faixa após um silêncio de 14 segundos.

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Sobre o(a) autor(a)

Jose Baptista

Atualmente trabalho na área de Consultoria em Gestão de Manutenção e Confiabilidade, responsável por consultoria, treinamentos, auditorias e suporte a implantação de contratos. Trabalhei na ABB em dois períodos, totalizando mais de 13 anos no Full Service como site manager de diversos contratos, gerente de engenharia, consultoria e gerente regional na ABB dos Estados Unidos e responsável global pelo processo de Manutenção focada na Confiabilidade. Sou formado em Engenharia Elétrica pela FEI - Faculdade de Engenharia Industrial e certificado como profissional de manutenção e confiabilidade nos EUA pela SMRP (Sociedade dos Profissionais de Manutenção e Confiabilidade - EUA).
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