Quem é responsável pela confiabilidade dos equipamentos numa organização industrial?

Neste artigo vamos discutir sobre a responsabilidade pela confiabilidade dos equipamentos numa organização industrial.

Que a confiabilidade dos equipamentos é requisito fundamental para que qualquer planta industrial atinja seus objetivos estratégicos, ninguém discorda, porém, a experiência nos mostra que, na verdade, a confiabilidade dos equipamentos e instalações não recebe a atenção que merece, na maioria das plantas, apesar dos gestores não reconhecerem este fato.

Para começar, a própria definição de confiabilidade não parece ser bem compreendida pela maioria das pessoas que deveriam conhece-la.

Isto eu concluo quando ministro treinamentos sobre o tema e, antes de apresentar a definição, eu pergunto aos participantes, o que é para eles uma definição de confiabilidade.

A resposta que ouço, na maioria das vezes é que confiabilidade é ter confiança no equipamento, ou seja que o equipamento ou sistema irá funcionar quando necessário porém, raramente mencionam o fato de que as condições de operação ou intervalo de tempo previsto para funcionamento são extremamente importantes e devem ser levados em consideração.

Se este conceito não está tão difundido como deveria, por consequência, podemos concluir que não é priorizado e adequadamente cuidado.

Vamos relembrar a definição de confiabilidade:
Confiabilidade pode ser definida como a probabilidade que um componente, equipamento ou sistema exercerá sua função sem falhas, por um período de tempo previsto, sob condições de operação especificadas.
Ou ainda:
“Capacidade de um item desempenhar uma função requerida sob condições especificadas, durante um dado intervalo de tempo”. (NBR-5462)

Com relação à responsabilidade pela confiabilidade nas empresas, a maioria das organizações industriais não possui a função de engenheiro de confiabilidade formalizada em seus organogramas e, na maioria dos casos, a manutenção industrial acaba, de alguma forma, sendo a “eleita” como responsável pela confiabilidade, pois, por definição, possui a responsabilidade de manter ou recolocar os equipamentos e instalações num estado no qual possam desempenhar sua função requerida.

Porém, se recordarmos a definição da confiabilidade, poderemos compreender claramente que a manutenção tem um importante papel a cumprir com relação à confiabilidade dos equipamentos e instalações mas não pode, em hipótese alguma, ser a única responsável pois a definição abrange outros aspectos que extrapolam as responsabilidades normais de uma organização de manutenção, como, por exemplo, as condições de operação do equipamento.

Mas, então, quem deveria ser responsável? Na realidade, apesar de parecer uma resposta evasiva, a responsabilidade pela confiabilidade dos equipamentos é, na prática, de todos na organização, ou seja desde a engenharia de projetos passando por processos, produção, suprimentos, recursos humanos, manutenção, etc.

O recente lançamento da série de normas ISO 55000:2014, que trata da gestão de ativos, de alguma forma comprova esta afirmação pois, em resumo, vincula a gestão de ativos aos objetivos estratégicos da empresa, ou seja, todos na organização tem sua parcela de responsabilidade, mesmo que um profissional ou departamente seja formalmente definido como responsável pela função, assim como a qualidade ou segurança.

Há algum tempo atrás, um artigo publicado na revista Plant Services (www.plantservices.com), assinado por Keith Mobley, me chamou bastante a atenção.

Neste artigo, o autor publicou dados que compilou ao longo de trinta anos sobre a causa de problemas de confiabilidade de equipamentos.

Segundo o autor, os dados apresentados na tabela abaixo, representam os problemas de confiabilidade investigados por ele e estes dados foram originados de todos os segmentos industriais, mas, predominantemente, de plantas de processo tais como metalúrgica, papel e petroquímica.

Causa do problema
Marketing & Vendas: 28%
Práticas de Produção: 17%
Planejamento de Produção: 20%
Compras: 10%
Engenharia: 8%
Manutenção: 17%

Muitas pessoas podem se surpreender com estes dados ou, até mesmo contestá-los mas, a experiência nos mostra que muitos dos problemas atribuidos à manutenção, se forem devidamente investigados, terão sua real origem em erros ou práticas inadequadas de operação, erros de projeto ou até problemas do planejamento de produção.

Talvez o dado mais surpreendente de toda a tabela seja que 28% das causas de problemas de confiabilidade sejam atribuidas a Marketing e Vendas.

Keith Mobley, em seu artigo, justifica que a função Vendas é responsável por determinar como as plantas operam. Em manufatura discreta, isto não impacta tão significativamente como em plantas que produzem aço e papel, por exemplo, ou seja indústria de processo contínuo.

Se Vendas “carrega” a planta com pedidos de pequenas quantidades, que implicam em constantes mudanças de set-up das linhas de produção, ou seja frequentes paradas e partidas.

O aumento da frequência de paradas e partidas têm impacto direto na confiabilidade, qualidade do produto e, em última análise, na própria capacidade de produção.

Creio que não há dúvidas, para aqueles que conhecem uma planta industrial um pouco mais de perto, de que a forma como ela é operada contribui, definitivamente para sua confiabilidade.

Uma analogia com os automóveis ajuda a compreender a afirmação acima, ou seja a forma como a pessoa dirige determinará a vida útil de vários componentes do veículo, por exemplo, freio, pneus, amortecedores, embreagem, etc.
Tempos atrás, testemunhei a queima de um importante motor numa linha de extrusão pois o operador tentou repartir a máquina por diversas vezes e, como o rotor estava bloqueado por material frio preso na rosca, a proteção por sobre-corrente do motor atuava e o operador insistia, rearmando a proteção e tentando partir novamente o motor até que o mesmo queimou pelo stress térmico das diversas partidas consecutivas em curto espaço de tempo.
E neste caso, quem foi o responsável por esta queima?

O operador que partiu diversas vezes o motor ou o supervisor que não o alertou sobre esta condição ou ainda a engenharia que não projetou o painel com a proteção adequada ao motor ou…?
Na verdade, foi feita a análise de causa raiz desta falha porém vamos deixar esta discussão para outra ocasião pois esta seria uma outra conversa.

Para concluir, pode-se até discordar dos números apresentados pelo Sr. Mobley, ou mesmo os critérios utilizados para atribuir para uma ou função maior ou menor percentual da causa dos problemas de confiabilidade, porém a essência da mensagem, e isto eu julgo irrefutável, é que toda função e todo colaborador tem impacto direto na confiabilidade dos equipamentos industriais e que o trabalho em equipe é fundamental para que se consiga obter melhorias neste campo.

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Sobre o(a) autor(a)

Jose Baptista

Atualmente trabalho na área de Consultoria em Gestão de Manutenção e Confiabilidade, responsável por consultoria, treinamentos, auditorias e suporte a implantação de contratos. Trabalhei na ABB em dois períodos, totalizando mais de 13 anos no Full Service como site manager de diversos contratos, gerente de engenharia, consultoria e gerente regional na ABB dos Estados Unidos e responsável global pelo processo de Manutenção focada na Confiabilidade. Sou formado em Engenharia Elétrica pela FEI - Faculdade de Engenharia Industrial e certificado como profissional de manutenção e confiabilidade nos EUA pela SMRP (Sociedade dos Profissionais de Manutenção e Confiabilidade - EUA).
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